No mês dedicado à conscientização sobre a importância dos cuidados com a saúde feminina, a história de Juliana mostra a força do cuidado e do acolhimento. Paciente atendida pela Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves relata como a família, a equipe médica e a fé sustentaram o tratamento e faz um apelo às mulheres: não deixar o cuidado com a saúde para depois
O câncer de mama é o tipo mais frequente entre as brasileiras, desconsiderados os tumores de pele não melanoma, e também a principal causa de morte por câncer nessa população. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 78.610 novos casos por ano no país entre 2026 e 2028, o que corresponde a 71,57 diagnósticos a cada 100 mil mulheres. Na Região Sul, o índice é maior e chega a 77,91. Cada um desses números representa uma rotina que muda de uma hora para outra, e é para essa realidade que a campanha Outubro Rosa volta a atenção ao longo do mês, com foco na prevenção e no diagnóstico precoce.
Juliana Boiaski viveu essa estatística. Hoje, aos 45 anos, ela fala da doença no passado, e faz questão de compartilhar o que aprendeu. “Falo que sou a prova viva de que enfrentei a doença com altos e baixos, mas me curei”, afirma.
Diagnóstico e reação
Juliana percebeu que algo não estava bem em setembro de 2015, quando ainda amamentava a filha, Lara, e identificou um nódulo na mama esquerda. A primeira ecografia mamária apontou ser um cisto, mas ela procurou um especialista na área (o mastologista Dr. Maximiliano Kneubill), que solicitou uma biópsia. O diagnóstico: câncer de mama. “Nesse dia, meu mundo desabou, me desesperei. Nunca estamos preparados para receber esse diagnóstico, e ouvir é como receber uma sentença de morte, pois a palavra Câncer é assustadora”, lembra.
Com suporte clínico, iniciou o tratamento oncológico com a Dra. Janaina Brollo. “Foi uma fase de muitas mudanças. Minha rotina passou a girar em torno das consultas, exames e tratamento. Tive dias mais tranquilos e outros mais difíceis, mas fui aprendendo a respeitar os limites do meu corpo”, conta. Nessa jornada, o apoio da família foi fundamental. “Às vezes, uma palavra de carinho ou simplesmente ter alguém do lado já fazia toda a diferença. Além disso, eu tinha uma filha pequena que dependia de mim, e foi nela que eu encontrei forças para não desistir”, diz.
A segurança para seguir o tratamento veio também dos profissionais de saúde, que orientaram cada decisão, e da acolhida que encontrou na Liga de Combate ao Câncer. Na entidade, Juliana recebeu ajuda com medicamentos, consultas médicas e acompanhamento psicológico, além do acolhimento que a entidade oferece a pacientes e familiares. “Sempre falo e agradeço que os verdadeiros anjos, para mim, durante o meu tratamento, foram o Dr. Max, a Dra. Janaina e a Maria Lúcia (Severa, presidente da Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves)”, diz.
O medo que não aparece nos exames
Mesmo com a cura confirmada, Juliana não esconde que o tratamento deixou marcas que vão além do corpo. “O câncer pode até sair dos exames, mas nem sempre sai dos pensamentos. Eu vivi essa experiência e aprendi que algumas batalhas acontecem em silêncio. Ninguém vê o medo escondido atrás de um ‘está tudo bem’. Muitas vezes, a esperança precisou vencer o cansaço. Quem passou por isso aprende a valorizar o que antes parecia comum e descobre que viver não é esperar o medo passar. É seguir em frente apesar dele”, reflete.
A fé acompanhou cada fase. Devota de Nossa Senhora de Caravaggio, Juliana fez uma promessa: se alcançasse a cura, iria a pé até o santuário dedicado à santa, em Farroupilha. Também tatuou na mão a frase que carrega como lema desde então: “Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim”. “Graças a Deus estou curada e tenho muita gratidão a todos que me ajudaram”, completa.
A experiência mudou também a forma como ela se relaciona com quem recebe o diagnóstico. Hoje, sempre que sabe de alguém em tratamento, Juliana procura conversar e oferecer apoio. “É um momento muito delicado, e só quem passou por isso sabe o que passa na cabeça. A gente fica sem chão”, explica.
Um recado para outras mulheres
Para Juliana, o cuidado com a saúde precisa entrar na agenda, e não ficar para depois. “Fazer a mamografia quando indicada e conhecer o próprio corpo são formas de cuidar da saúde. Separe um tempo para você e, se tiver dúvidas sobre quando fazer a mamografia ou como acompanhar a saúde das mamas, converse com um profissional de saúde. Você também merece esse cuidado”, orienta.
As diretrizes do Ministério da Saúde reforçam esse caminho. No Sistema Único de Saúde (SUS), a mamografia de rastreamento é indicada a cada dois anos para mulheres de 50 a 74 anos, faixa que antes terminava aos 69. Entre os 40 e os 49 anos, o exame é garantido quando a paciente, em conversa com o profissional de saúde, opta por fazer o exame, sem uma periodicidade fixa. A atenção a essa faixa acompanha um dado apontado pelos especialistas: embora a maior parte dos casos ocorra depois dos 50 anos, cresce o número de diagnósticos em mulheres com menos de 40. Entre 10% e 15% dos tumores de mama têm origem genética, ligada a alterações em genes como o BRCA1 e o BRCA2, o que torna o histórico familiar outro ponto a ser levado ao consultório.
A observação do próprio corpo completa esse cuidado, e Juliana insiste nesse ponto. “Sempre que sentir algo diferente no seu corpo, procure um médico. Não deixe para amanhã, pois o amanhã pode ser tarde. Com o diagnóstico no início, a chance de cura é bem maior”, alerta. A quem está em tratamento, ela deixa outro conselho: “Procure apoio nas pessoas que ama e siga as orientações da sua equipe de saúde, um passo de cada vez. Há caminhos de tratamento e pessoas dispostas a caminhar com você”.
Para ela, o Outubro Rosa resume tudo o que viveu. “Representa cuidado, prevenção, informação e, principalmente, esperança. É um lembrete de que cuidar da saúde deve acontecer durante todo o ano e de que ninguém precisa enfrentar um diagnóstico sozinho”, afirma. E encerra com a frase que costuma repetir a quem encontra no início do tratamento: “Nunca desistam. Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados”.


