A convite da Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves, especialista integrante da diretoria da Sociedade Brasileira de Mastologia falou sobre terapias personalizadas, direitos das pacientes e hábitos que reduzem o risco da doença
O câncer de mama cresce no mundo inteiro, mas a medicina nunca teve tantos recursos para enfrentá-lo. Foi com esse panorama que o mastologista José Luiz Pedrini, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Mastologia, conduziu o encontro promovido pela Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves na noite de quarta-feira (7), na sede da entidade. Ao longo da conversa, o especialista atualizou o público sobre as mudanças no diagnóstico e no tratamento da doença e mostrou o quanto a rotina de cada mulher interfere na prevenção.
A preocupação com a incidência abriu a palestra. No Brasil, as projeções já superam 80 mil diagnósticos a cada ano, e o avanço não é um fenômeno local. O contraponto, segundo ele, está na evolução dos tratamentos, tanto cirúrgicos quanto medicamentosos. “Nunca se teve um índice de cura tão grande. O Brasil, porém, ainda convive com uma mortalidade importante, e por isso a conscientização precisa chegar a todas as mulheres, para que o tratamento comece cedo e tenha mais efetividade”, afirmou o mastologista.
Tratamento sob medida
Uma das novidades compartilhadas pelo especialista foram as terapias inteligentes. Em vez da quimioterapia que atinge todas as células do organismo, os medicamentos atuais são direcionados a proteínas presentes no próprio tumor, o que reduz os efeitos colaterais e aumenta a eficácia. Alguns deles sequer provocam a queda de cabelo e podem ser administrados por via oral ou por meio de uma injeção subcutânea mensal, poupando a paciente de longas horas no hospital. “Nem todo tumor é igual, nem toda pessoa é igual. Hoje o médico trabalha como um alfaiate: usa naquela paciente o que funciona para o tipo de doença dela e deixa de lado o tratamento genérico. É a menor dose possível com o maior efeito”, comparou.
Pedrini ponderou que a cura apenas com medicamentos ainda não é uma realidade e que a cirurgia segue como o caminho para eliminar a doença. Nesse campo, as técnicas também mudaram para melhor. Os procedimentos são minimamente invasivos e, em muitos casos, a mulher volta para casa no mesmo dia. A radioterapia acompanhou esse movimento, com aplicações mais precisas e em número bem menor do que no passado.
Quando a retirada da mama é inevitável, a legislação brasileira garante a reconstrução imediata, no mesmo ato cirúrgico. Desde novembro de 2025, a lei assegura ainda a simetrização da outra mama, para que as duas mantenham equilíbrio. “É um dever do Estado e um direito da cidadã ter a sua mama reconstruída. A população precisa conhecer esses direitos e os novos tratamentos, porque a mobilização social é capaz de mudar a realidade e de exigir de nós, médicos, enfermeiros e farmacêuticos, que a lei seja cumprida e que se ofereça o que há de melhor para cada mulher”, defendeu Pedrini.
Sem medo do exame
Ao tratar do receio que afasta muitas mulheres do consultório, o mastologista inverteu a lógica da má notícia. “Ninguém gosta de receber uma surpresa num exame. Mas, na maioria das vezes, a alteração encontrada não é câncer. E, quando se trata de um câncer inicial, o tratamento é mínimo, a retirada de tecido também, e a chance de cura chega a 95%. A pessoa vai morrer de outra coisa, não daquele tumor”, explicou.
A orientação da Sociedade Brasileira de Mastologia é realizar a mamografia todos os anos a partir dos 40, mantendo a rotina até a faixa dos 70 anos. Nas famílias com histórico da doença, o rastreamento deve começar dez anos antes da idade em que o primeiro caso foi diagnosticado. Pedrini lembrou que o exame de imagem não substitui o toque. Caroço, abaulamento, retração da pele ou do mamilo, pele com aspecto de casca de laranja e secreção mamilar, sobretudo quando aparece em apenas um lado, são sinais que pedem avaliação médica.
Hábitos que protegem
A prevenção primária também apareceu entre os importantes cuidados em busca da saúde. O médico recomendou a dieta mediterrânea, com frutas, verduras e grãos. Incluir diariamente duas colheres de sopa de azeite à salada ou à comida, de acordo com estudos citados por ele, pode reduzir em até 20% o aparecimento do câncer de mama. A lista inclui ainda atividade física, controle do peso, principalmente depois da menopausa, menos estresse e mais tempo para os amigos. “Qualidade de vida não significa ausência de doença, mas ajuda a diminuir o risco. Também é preciso cuidar do ciclo circadiano. Nós fomos feitos para dormir à noite e passar o dia em atividade, e inverter isso é prejudicial quando falamos em câncer. Sorrir um pouco mais, ter boas relações e sentir que pertence a um grupo faz diferença”, aconselhou.
Pedrini destacou, ainda, o papel da entidade anfitriã na região. “O trabalho da Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves é um exemplo de tenacidade, de busca pelo conhecimento e de cuidado em transmiti-lo, principalmente para que os pacientes saibam dos seus direitos e de como fazer a prevenção”, afirmou.
Para a presidente Maria Lúcia Severa, receber um especialista com atuação em pesquisas e estudos internacionais dá peso à mensagem que a entidade leva durante todo o ano. “Quem esteve aqui hoje vai multiplicar essas informações, e é isso que a Liga de Combate ao Câncer de Bento Gonçalves busca: levar à comunidade um conteúdo correto e seguro”, ressalta a presidente.
A agenda do Outubro Rosa segue com palestras em empresas e ações na comunidade. Para mais informações, o contato pode ser feito pelo telefone (54) 3451.4233.


